Rhiannon Giddens – Freedom Highway (2017)

Cantora e multi-instrumentista, Rhiannon Giddens é mais conhecida como vocalista da banda afro-americana Carolina Chocolate Drops, cujo álbum de 2010, Genuine Negro Jig, lhe rendeu um Grammy de Melhor Álbum Folk. Criada na cidade de Piemonte, estado da Carolina do Norte, Rhiannon estudou ópera no Oberlin Conservatory antes de se mudar de volta para casa, onde ficou imersa nas tradições musicais rurais daquela região. Um encontro casual com os futuros colegas, Justin Robinson e Dom Flemons no estúdio Black Banjo Gathering, que resultou na formação de seu primeiro projeto folk, Sankofa Strings.

Freedom Highway é sobre liberdade. Mas, mais do que isto, é sobre mulheres negras e suas histórias de luta por liberdade. E isto é muito poético, mas não é só isso! Pra começo de conversa podemos falar da voz e da interpretação com as quais a cantora dá vida a sua música. E como se isso não bastasse, ela canta com uma verdade cheia de dignidade. Coloca a quantidade certa de paixão e de poesia nas suas narrativas, que falam de dor, de preconceito, de amor e outros temas que provocam reflexão. O tipo de reflexão necessária para a contemporaneidade. Talvez, mais do que há 200 anos (período histórico sobre o qual se debruça a artista neste trabalho), pois consideramos pertencer á uma época evoluída, mas temos cometido erros mais graves que os do passado.

Ao lado das sonoridades características do banjo e do violino no estilo “blues de Piemonte”, o instrumento que mais aparece no desenrolar das narrativas é a própria voz da cantora, que tem a habilidade de “cantar” histórias como ninguém. Sua vida tem sido dedicada ao estudo das causas relativas à etnia e transforma suas pesquisas em música imanente de simbolismos que chegam à mente como um filme. As imagens surgem com clareza em cada estrofe, em cada palavra cantada. Fazendo com que até a barreira da língua seja colocada em segundo plano.

Os destaques do disco são:

1) At the Purchaser’s Option, baseada em fatos reais, a história é contada do ponto de vista de uma mãe que ver o destino de seu filho ser traçado pelo fato de haver nascido na condição de escravizado; 3) Julie, uma das canções que tem como plano de fundo a Guerra Civil Americana, cuja história escancara as desventuras de uma mulher que viveu como escrava e amante do seu “senhor”; Mas o momento mais comovente do álbum ocorre em 6) We Could Fly, um tema que fala de espiritualidade, ou seja, de uma família que busca por um tipo de liberdade iluminada através dos tempo em muitas gerações. A canção é baseada numa peça escrita por volta de 1854, mas que reverbera até hoje.

O senso da cantora, na busca de conhecer e compreender a tradição afro na américa, é a força motriz por trás da arte de Rhiannon, pois escancara a terrível simetria dos fatos históricos sobre a luta dos negros americanos e serve como prova incontestável de que os motivos que justificavam as canções de protesto a dois séculos atrás permanecem vitais ainda hoje.

Referências:

Samantha Fish – Chills & Fever (2017)

Ela nunca se limitou por qualquer expectativa. Crescendo em Kansas City, ela trocou a bateria pela guitarra quando tinha apenas 15 anos de idade. Passou a maior parte do seu tempo em pequenos pubs ouvindo bandas de blues. Chamou a atenção de Ruf Records, que lançou seu álbum de estreia, Girls with Guitars, conjuntamente com Cassie Taylor e Dani Wilde. Isso a levou a formar seu próprio trio e a gravar mais três álbuns, Runaway (2011), Black Wind Howlin‘ (2013) e Wild Heart (2015). como consequência, recebeu um prêmio de Melhor Artista Debut no Blues Music Awards em Memphis (2012). Ao longo do caminho ela trabalhou com artistas como Jimmy Hall, Devon Allman, e Reese Wynans, entre outros. 

Chill & Fever apresenta uma nova Samantha. Particularmente, percebi mudanças tanto de sentido como de direção: 1) a mudança de estilo, do blues para algo mais funkeado com tendências que, ora descambam para o soul, ora para o rock; 2) As composições não foram escritas em função da guitarra, embora haja predominância do instrumento; e 3) a passagem da artista de uma cantora em desenvolvimento para uma cantora de fato. Não se pode dizer que, ao beber em fontes variadas a artista cometa um pecado, muito pelo contrário, ao assimilar elementos de outras vertentes, ela se abre para um mundo de possibilidades. No entanto, disso também decorre uma tentativa de abarcar a um público maior, que também não é pecado. O pecado, na verdade pode vir da pressa em obter esse público de modo a se descuidar do que realmente importa: a música.

E quanto a música podemos dizer que: 1) parece simbolizar uma transição para algo mais comercial; 2) mais investimentos podem significar melhor acabamento e 3) não é o melhor nem o pior disco da artista. O que estou tentando dizer é que apesar dos esforços este trabalho não ultrapassa a marca do “médio”. Não apenas por causa dos pontos citados, mas, por não causar grande impacto: 1) tem peso, mas falta vibração; 2) tem variação, mas falta profundidade e 3) agrada, mas não comove.

O disco é bom, mas poderia ter sido o divisor de águas na carreira de Samantha. De toda forma, os destaques, na minha opinião são: 2) Chill & Fever, que até lembra algo de Morphine ou de Emy Winehouse, 7) Either Way I Lose, um dos momentos em que a cantora melhor interpreta suas próprias composições e 12) Crow Jane, que é uma versão brilhante para o clássico de Piedmont Blues Guitar.

Referências:

Robert Finley – Goin Platinum (2017)

Robert Finley nasceu no estado da Louisiana/USA. Artista do blues e do soul, demonstra apreço pela música gospel. “Eu desenvolvi um gosto precoce pela música quando comprei um violão usado aos 11 anos”. Isso seria o começo de uma obsessão ao longo da vida pelo instrumento com o qual aprendeu a brincar, tocar e, eventualmente, a escrever suas próprias músicas. Frequentemente convidado para tocar em grupos  evangélicos, causou grande impacto nos amigos quando se inscreveu para o Exército em 1970. Originalmente recrutado como técnico de helicóptero para operar na Alemanha, suas habilidades foram rapidamente reconhecidas e logo mudou de estatus na Instituição, sendo convidado para tocar guitarra na banda militar, que o levou para se apresentar por toda a Europa tocando músicas de artistas como Issac Hayes e Marvin Gaye.

Robert Finley e Bruce Watson

Ao retornar para casa, encontrou trabalho como carpinteiro e prosseguiu com suas paixões artísticas no tempo livre, trabalhando também como artista de rua e liderando o grupo evangélico, “Finley & the Sisters of the Gospel“. Anos mais tarde, foi forçado a retirar-se da carpintaria por razões de saúde e, como resultado, ele não conseguiu dar o devido suporte à sua paixão pela música. No entanto, conheceu um membro da Fundação Music Maker (uma agência que promovia músicos de blues) que o ajudou a retornar à cena musical. Inteiramente escrito por Finley, este álbum foi gravado em Memphis, Tennessee, com Bruce Watson (Junior Kimbrough, Hasil Adkins) e apresentou-se como convidado do conjunto de jazz Bo-Keys.

O álbum foi estilisticamente comparado ao trabalho de artistas como James Brown e B.B. King. Finley manteve-se ocupado com a música e começou a trabalhar no seu segundo álbum com o produtor Dan Auerbach (Lana Del Rey, Ray LaMontagne) da blues rock band, The Black Keys. O álbum intitulado Goin ‘Platinum foi lançado pelo selo Nonesuch Records no outono de 2017.

Referências:

Aline Lessa – Hoje Falo por Mim (2017)

Depois de seis anos de trabalho com a banda Tipo Uísque e um disco autoral, a cantora, compositora e multi-instrumentista Aline Lessa chega ao seu segundo CD, Hoje falo por mim, pela Biscoito Fino, e com selo da Garimpo (segmento de lançamentos da página Brasileiríssimos) onde dialoga com os sentimentos gerados durante e após a separação de um relacionamento intenso e o impacto que tiveram em sua vida. Aline quis montar uma pequena dramaturgia que passa tanto pela ordem das músicas quanto pela concepção artística do trabalho, assinada pelo artista Caio Riscado. O conceito do disco pode ser percebido em toda a identidade visual do projeto, reverberando uma ideia de renascimento, deixando para trás mágoas, arrependimentos e afetos. Domenico Lancellotti, produtor do disco captou essa ideia e propôs um disco sem pré-produção, uma foto daquele momento, traduzido em arranjos e climas.

Beth Hart – Fire On The Floor (2017)

Cantora e compositora norte-americana originária de Los Angeles, com oito álbuns na bagagem (sendo um desses ao vivo). Tem apenas 41 anos, e seu maior sucesso aconteceu em 1999, com o single L.A. Song (Out Of This Town), que chegou ao Top 5 da parada americana. Com o sucesso veio a pressão, vício em drogas, necessidade de internação em clínicas e uma carreira promissora que parecia estar indo para o ralo… Aos poucos, ela se recuperou: se livrou (na medida do possível) do vício, voltou a gravar, excursionar e a resgatar sua base de fãs. Chegou a gravar uma canção com Slash (GN’R), para o álbum solo do guitarrista. O ídolo retribuiu participando de um álbum da cantora.

Mas sua vida artística mudou de verdade quando conheceu o super bluesman Joe Bonamassa e eles resolveram gravar juntos um álbum de covers. A carreira da cantora deu uma guinada e este disco chegou à 22ª posição na parada inglesa. O disco novo representa um grande momento criativo para a artista, que tem disparando álbuns aclamados junto aos maiores nomes da música e agitando as noites americanas com sua voz agre-doce. Pode-se dizer que com este novo disco, Beth está literalmente ardendo em chamas. Fire on the Floor trás canções baseadas no Blues, que é sua principal influência musical, mas também podemos falar de jazz e de soul music como elementos de sua natureza artística.

Referências: