Belchior – Alucinação (1976)

“A história de Antônio Carlos Belchior é a história de uma criança, saudável e feliz, que cresceu ouvindo música em casa e nas ruas [com os] cantadores repentistas. É a história de uma criança que apaixonou-se pela cultura do povo e para o povo cantou a vida toda”, escreveu em seu blog o jornalista paraibano Assis Ângelo, que várias vezes recebeu o artista em sua casa, já em São Paulo, servindo bons pratos de bacalhau. Assis desembarcou em terras paulistanas praticamente ao mesmo tempo em que Belchior começava a experimentar o sucesso, com o disco Alucinação (1976), depois que Elis Regina lançou Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, as duas primeiras faixas do disco Falso Brilhante, do mesmo ano.”

Alucinação foi lançado num ano conturbado em todos os sentidos. Instabilidade político-econômica, inflação astronômica, desigualdades sociais nos quatro cantos do país e toda a sorte de obstáculos para qualquer rapaz latino americano. O cenário era obscuro (talvez só encontre paralelo neste ano de 2021) e nada promissor para um artista como Belchior. Sua visão de mundo se debruçava sobre seu tempo, mas sua forma de compor não se encaixava nos padrões da época. Aliás, o sentimento de sentir-se deslocado no espaço-tempo era o combustível para suas composições. “Bel” era um trovador, cantava para o homem da cidade e para o sertanejo, falava de saudade, de resistência, contava de forma extraordinária e sem simulacros a rotina do homem comum fazendo uso de referências que bebiam em poetas, filósofos, artistas, e assim construía suas músicas em alicerces potentes oriundos de várias realidades a partir do que lia, ouvia e percebia do mundo. E isto pode significar tanto referências às canções de Caetano Veloso quanto de John Lennon.

A música de Belchior é como um apito para cães, que toca numa frequência em que poucos podem escutar, mas que toca os corações de forma única. Nesse sentido, é uma música para os despertos, para os que percebem as cores vivas na contemplação das madrugadas. Com isto, não quero dizer que sua música trata de algo muito complexo, mas justamente o contrário. Trata das coisas extremamente simples.

O disco contém 10 faixas diluídas em aproximadamente 37 minutos e cada uma leva a algum tipo de reflexão silenciosa cuja poesia tem o poder quase sobrenatural de levar às lágrimas, e que também funcionam como forma de catarse: um grito, um desabafo. O disco inteiro é um diamante precioso, um café quente e forte a ser degustado lentamente. Esse disco é como um baú de recordações que traz em si todos os tipos de lembranças. E quando recordamos é natural que algumas memórias nos marquem mais intensamente. Assim, como destaques, para este que vos escreve, cito: 3) Como Nossos Pais, sobre a ditadura instalada, 5) Como o Diabo Gosta, que prega a desobediência ao establishment 6) Alucinação, sobre a coragem de encarar a realidade num país fadado ao ostracismo. E 8) A Palo Seco, sobre o direito de se desesperar com dignidade numa época sem quaisquer oportunidades.

Este relato tenta expressar a forma como o disco me toca, mas deixo aqui o convite para que você também abra a porta que leva ao labirinto poético de Belchior, que se aventure em cada verso, prosa e melodia, que sinta a delicadeza e a força das composições de um homem à frente de seu tempo que, através de sua arte, nos faz olhar com carinho para o outro e, principalmente, para o que tem dentro de cada um de nós.

Referências:

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